Monday, March 31, 2008

Sobre a Câmara

É verdade que a recuperação do monumento envolve uma série de tomadas de decisão e de tarefas que ultrapassam, ou vivem perfeitamente em paralelo, com aquilo que possamos projectar para o sítio depois de realizado esse trabalho de recuperação. Creio que sim.
Sobre essa tarefa, que se enquadrará bem mais no âmbito do discurso da arqueologia, gostaria, contudo, de salientar um ponto com a seguinte pergunta: o que nos deverá esperar no interior da câmara (depois da reconstrução)?
Que respostas temos nós que nos permitam tomar opções e em que tipo de registo deveremos situar a comunicação? Vamos recriar um ambiente mais ou menos realista? E baseados em que circunstâncias? Vamos fazê-lo usando tecnologia do nosso tempo, sem preconceitos?
Estou em crer que este aspecto, bem como toda a encenação exterior (mamoa e átrio), deverá receber atenção máxima e intervenção mínima.

6 comments:

Manuel Calado said...

Bem, aceitam-se sugestões.
Na verdade, creio que os dilemas se colocam sobretudo em relação ao aspecto exterior e, para tomar decisões nesse domínio - uma vez que as informações proporcionadas pelas escavações são, em vários aspectos, inconclusivas - eu proponho que se venha constituir um painel de sábios, uma equipa de consultores com experiência concreta na recuperação de monumentos desse tipo: pessoas como o Charles-Tanguy Le Roux, o Serge Cassen, o Dehn Torben, etc.

Quanto ao interior, penso que há que electrificar e iluminar, de forma discreta.
Não seria disparatado, eventualmente, produzir um "espectáculo" multimédia,de curta duração,projectado sobre os esteios, como acontece, com grande eficácia, na gruta de Mas d'Azil, no Sul de França.
A existência de um guia bem treinado, parece-me, de entre as modalidades que tenho visitado, a melhor solução.
Resolve o problema dos conteúdos necessários à compreensão do monumento, pelos visitantes, mas também a questão dos vandalismos. É uma forma de garantir a dignidade a que um monumento tão excepcional tem certamente direito.

Pedro Alvim said...

(É uma pequena chatice não se poder editar, apenas, os comentários- pelo menos eu ainda não sei como...)

As ideias da iluminação e/ou projecções multimédia são bastante delicadas, na minha opinião. (Nesse(s) caso(s) tratar-se-ia de uma criação e não de uma recriação.) Talvez se pudesse enveredar por opções alternativas que fizessem mais justiça às funções originais do monumento. Não sei exactamente quais, mas sugiro que este seja mais um ponto de reflexão e discussão.
Na entrevista, Henrique Leonor Pina, avança, como hipótese, a possibilidade do corredor ter sido bloqueado em algum momento da vida pré-histórica do monumento; o que poderá significar que, a partir de certa altura, apenas o exterior (a mamoa) era experienciado.
Neste sentido, sugiro que se reflicta sobre a importância da luz natural e da escuridão ,nos dolmens, e, também, sobre a "morte" dos monumentos e a sua (posterior?) naturalização.

Manuel Calado said...

Viva! O Pedro entrou na liça...
Bem, vamos à discussão, que o resto é conversa.
1. Levantas uma questão inevitável, em qualquer restauro: que momento vamos restaurar?
Não há apenas um momento, há muitos... Por exemplo, se a grande estela tombada junto à entrada tivesse sido, inicialmente, um menir erecto,e se, a construção da anta o tivesse reutilizado na delimitação do átrio (é só uma hipótese), como deveríamos proceder:
a)erguer o menir e materializar dois momentos diferentes
b) deixá-lo tombado e reconstruir só a anta?

2. A projecção de imagens, com som (multimédia).
Não é criação do monumento. Seria, quando muito, uma criação sobre o monumento (de duração efémera e impacto sobre o monumento, nulo).
Na gruta de Mas d'Azil, no final de uma excelente visita guiada, é projectado um vídeo muito bem feito, com a história do sítio. O vídeo é projectado nas paredes da sala maior da gruta.

A iluminação é um assunto que, na minha opinião, pode ser resolvido de duas maneiras:
a) pontos de luz suave, discretos que mantenham uma boa noção da penumbra original (com mais ou menos tochas, ou com fogueiras... Com algum requinte, a iluminação poderia provocar a ideia de movimento, a luz e as sombras dessas fontes luminosas.
b)A alternativa mais convencional, que se usa na gruta de Niaux, por exemplo, é cada visitante ser munido de uma lanterna (de mão ou de testa).

Rafael Henriques said...

Eu diria que não há hipótese de fazer um restauro, como entendo no comentário do Pedro. Mas sei quais são as preocupações que o assombram, de tal forma que se sentiu na necessidade de comentar ;)

Arrisco dizer que o restauro, e falando agora especificamente da câmara da anta, possa passar por uma proposta que ofereça ao visitante sugestões em lugar de respostas. E para isso usar tecnologia actual não me chocaria de modo algum.

Acredito que possam existir divergências quanto a esta apreciação.

Pedro Alvim said...

[Lá está mais um post apagado. Rafa: vê lá se dás conta disto, como administrador que és, porque eu não consigo :-)]

Falei da provável condenação da anta para realçar uma fase da vida do monumento que, eventualmente, anulou a leitura do seu interior - apenas como food for thought.

Acho que as hipóteses da iluminação interior (fixa), e de projecções multimédia, entram no domínio da criação - de um ambiente estranho às funções originais da anta.
São um pouco de arquitectura porque transformam e criam um ambiente que não existia antes naquele espaço.
Eu dou extrema importância ao vazio da câmara como se vive hoje (talvez porque sempre tenha vivido o interior do monumento assim).
Esse vazio conduz o olhar para os esteios, para o afunilar vertical da câmara, para a textura e cor do granito... uma projecção iria distrair o olhar dessa experiência.
A iluminação artificial fixa seria necessariamente invasiva em termos de fios, fixações, metais, vidro etc etc..
De certa maneira iria fixar o ambiente na imagem de projecto do artista da iluminação.
Ontem, quando escrevi o outro comentário, pensei exactamente em lanternas de mão porque são pessoais, iluminam aquilo que se quer ver, anulam as sombras indesejadas. Uma experiência pessoal, dinâmica.
Quanto ao vazio da câmara: esta foi esvaziada, num processo histórico, cerca de 5 a 6000 anos depois do monumento ter sido projectado e criado. Aquilo que ela continha já não está lá. O bloqueio hipotético da câmara também não existe. Então, ela continuar vazia, à excepção de seres humanos, é o presente e a história com o ambiente da pré-história, e lanternas, tudo muito claro.

Manuel Calado said...

Cá temos as velhas e boas discussões.
1. Sobre a iluminação, estamos então de acordo; se calhar não deixei claro que era a solução que proponho. É a alternativa menos invasiva.
2. Quanto às projecções, apesar de não as achar desajustadas, não me bateria demasiado por elas.
Porém, acho:
a) que podem ser uma ferramenta de comunicação muito eficaz (muito próxima),a complementar o Centro Interpretativo dos Remédios (generalista e distante)e o painel a colocar junto ao Parque de Estacionamento (mais específico e próximo.
b)que permitiria desfrutar totalmente o ambiente do interior da câmara, sem intrusões; de facto, em Mas d'Azil, o vídeo é mostrado no último episódio da visita, antes da saída para o exterior.
De facto, creio que na AGZ ainda é mais pertinente, uma vez que, sem algum paleio,a visita ao interior é muito rápida. Eu creio, como já disse, que a melhor forma para organizar as visitas - e evitar vandalismos, garantindo a dignidade do sítio - é com guia. As tais famigeradas projecções conplementariam também o trabalho do guia.