Wednesday, March 26, 2008

Que fazer?

Apesar de se tratar de um monumento de excepcional valor patrimonial (noção que creio ser partilhada tanto pelos especialistas como pela generalidade dos visitantes) a Anta Grande do Zambujeiro tem vindo a ser ciclicamente votada ao abandono por parte das instituições responsáveis.
O seu estado de degradação estrutural resulta, a meu ver, de diversos factores, de ordens diversas:
1, os factores de ordem natural, nomeadamente:
a) a alteração natural dos granitos
b) as tensões exercidas sobre os blocos pela própria estrutura; de facto, todas as antas constituem uma "provocação" à natureza, uma vez que as pedras foram retiradas dos seus contextos naturais e organizadas de forma algo instável (nos caos de blocos naturais, as pedras que ficam sujeitas a tensões, acabam frequentemente por fracturar e adoptar posturas mais estáveis; todos os edifícios humanos acabam por ruir, por razões idênticas.
c) fragilização resultante das alterações ambientais criadas pelo desmonte da mamoa.
2. A pressão dos visitantes, que incide sobretudo na erosão acelerada da mamoa; esta estrutura foi, aliás, exposta pelas diversas intervenções arqueológicas efectuadas na anta.
Actualmente, a cobertura metálica, os postes de alvenaria e a estrutura de madeira são remendos relativamente eficazes, em termos de retardamento dos processos de degradação; o pior é, efectivamente, a dignidade do monumento e a legibilidade do mesmo. São sobretudo problemas de foro cultural e que têm a ver com a relação que a sociedade estabelece com valores deste tipo.

A sua reabilitação passará, segundo me parece, por várias acções:
- Realização de novas sondagens que permitam:
a) resolver algumas incógnitas de que depende a genuinidade da reconstrução (como seja a existência ou não de uma carapaça pétrea, documentada em inúmeros monumentos do mesmo tipo ou a eventual posição erecta do bloco que está tombado junto à entrada do corredor), ou preparar o terreno para as intervenções de engenharia que venham eventualmente a ser adoptadas para "segurar" de forma estável as tampas danificadas)
b) consolidação da estrutura pétrea;
c) recuperação/reconstituição da mamoa; aqui levantam-se, sobretudo, questões que se prendem com a inexistência de dados fiáveis sobre a forma final que a mesma deve assumir (com ou sem fachada, em calote ou em degraus, com a pedra de fecho ser visível ou não, etc. etc.)
d) arranjo paisagístico adequado
e) definição das condições de visitabilidade (com ou sem guarda, iluminação do interior)
f) criação de material informativo

Neste momento e neste blog, todas estas questões deveriam ser discutidas; precisamos de soluções técnicas, mas também contributos de ordem estética.

Deveríamos, sobretudo, apelar à cidadania dos interessados nestes temas e sensibilizar as instituições de quem depende, em última análise, a tomada de decisão.

1 comment:

rmataloto said...

Gostaria apenas de deixar um pequeno apontamento sobre o blog em geral e o monumento em particular.
É de notável interesse este quase "fórum" de ideias e problemas sobre um monumento que está, apenas aparentemente, esquecido. De há muito que estudos, escavações, ideias, debates, têm surgido em torno de tão emblemático monumento. No entanto, e não sem gastos financeiros, nada se tem feito, e as soluções de minimização apenas agudizaram os problemas (veja-se a erosão junto aos esteios provocada pelas escorrências da cobertura de chapa).
Neste momento, não consigo, no actual panorama nacional e regional, antever um desfecho breve para a questão.
Assim, tenhamos coragem de propor, já, algo que permita conferir, minimamente, alguma dignidade ao monumento. Por mim, algumas toneladas de brita e uns bons metros de geotêxtil, permitiriam terminar com a infâmia que é ter este monumento no estado actual.
Não esqueçamos que neste caso, como em tantos outros, não é apenas a incuria das entidades nacionais e regionais a causa do problema. O problema começou e permaneceu durante bastante tempo por culpa das intervenções arqueológicas. Desnecessárias e destrutivas, na justa medida em que permanecem totalmente inéditas.